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Em 2012 reduzi drasticamente o tempo que passo online. Mudei o estilo de vida e re-administrei meu tempo, e ao fazer isso percebi que sou o pior tipo de usuário: o raso.
A quantidade de informação que transita entre a tela e nossos olhos a cada minutos é surpreendedora - é cada vez mais difícil ser uma pessoa atualizada e bem informada.
Cada vez mais aparecem teóricos e teorias dizendo que a internet emburrece. Discordo, ela pode emburrecer, mas não faz por regra. Consumimos muito conhecimento, mas superficialmente demais. Não dedicamos grande tempo pra um assunto só. Se antes a única fonte de notícias era o jornal, hoje ela está democratizada e disponível a todo canto. Lemos sobre macacos africanos e Freud ao mesmo tempo, mas depois de dez minutos, já não conseguimos enunciar o que lemos sobre ambos.
Hoje é cobrado de nós que sejamos pessoas críticas, informadas e atualizadas, e muitas vezes ao tentarmos corresponder a essas expectativas (internas e externas), acabamos, na tentativa de consumir o máximo possível de informação no mínimo de tempo, errando e simplesmente folhando. Tornamo-nos rasos.
Lemos dois jornais, acompanhamos avidamente a timeline do Twitter, em busca de conteúdo e informação, lemos revistas, acessamos blogs, lemos editoriais e opiniões, e ainda compartilhamos no Facebook, tudo em 30 minutos. Resultado: “Eu lembro de ter lido algo sobre isso em algum lugar.. mas não sei bem do que se trata.” Acontece comigo o tempo todo.
Precisamos conhecer o novo meme, ver o viral da semana, saber da discussão do dia, como vagos especialistas em tudo. E aí alguém te pergunta: viu isso? e todo seu reino de informação cai abaixo - como pode deixar passar?
Me descobri o usuário que sempre temi ser, o raso e não proveitoso.
É verdade, leio bastante e busco consumir bastante informação, mas quanto isso me é útil, em tamanha quantidade? Impossível assimilar tudo.
Hoje tenho preferido textos mais densos e em menor quantidade, cápsulas de 140 caracteres de cultura inútil, pequenas notícias sobre o dia-dia e artigos mais elaborados sobre atualidades.
Acho que me encontrei, mas o filtro de conteúdo nunca pode parar.
“às vezes viajo no tempo com você. vamos a lugares espetaculares, a memória volta, sinto teu cheiro.
1984, não esqueço jamais.”
“o dia era 23 de janeiro. o começo de um novo tempo, de um novo contexto. um outro começo.
o céu se desligava do preto de uma madrugada difícil e trocava por um azul sereno, claro.
bons fluídos estavam por vir. suor. de tentativas incasáveis de suceder num futuro talvez não tão próximo.
havia esperança, alguma, lá no fundo do pote dos biscoitos que outrora comera sem culpa.
e a manhã trazia calma. e uma voz interior gritava: tudo vai dar certo. tudo tem que dar certo. “
“admito, a solução é fácil. está aqui bem na minha frente.
o problema é você que não enxerga o problema.
há meses. anos.
e nada faço. nada sinto.
você não faz meu mundo balançar. você não me deixa com frio na barriga.
eu queria que isso ficasse claro, Vitória.
e seu nome? deveras ironia.
há. entre uma tragada de cigarro e um gole de café eu penso como teria sido.
e não foi.
não foi porque não foi e não era pra ser.
e sejamos francos, determinismo é pros fracassados. e isso diz muito.
mas não me venha cheia de seu positivismo, Vitória. Comte teve um colapso nervoso enquanto trabalhava em sua teoria, seu casamento falhou e ele morreu sozinho. escolha melhor seus ídolos.
eu estou tão perdido quanto você.
meu chão. essa era a sua significância por mais que nunca tenha percebido.
meus olhos e ouvidos.
tentei a minha língua, a sua língua e o grego arcaico. comunicar é tão difícil?
10 anos e parece que nem te conheço.
eu só desejo seu melhor.
longe de mim.
com amor, Michel.”